quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Entre a CEU e a Terra

As pessoas vivem na CEU como se vivessem em um hotel. Ou, num
condomínio, "cada um no seu quadrado". Não andam de pantufas pela Casa
do Estudante como se estivessem numa casa de pessoas "normais", onde
se vai só de toalha para o chuveiro (no verão é melhor) e se cantarola
velhas canções no banho. É como se o tempo todo a vida fosse pública,
em nenhum momento existisse o privado, a intimidade: o que é
individual e íntimo fica restrito ao corpo e não ao espaço em que se
desloca esse corpo. "A subjetividade é abruptamente limitada aos
limites da epiderme" (Joeverson, 07/09/2008). Nosso corpos seguem
presos dentro de celas manicomiais e sujeitos a todas as
interferências do meio, ou seja, uma usina de produção de malucos.
Somos capazes de escutar paredes, e vice-versa. Se escutam sons
estranhos, familiares, inconfundíveis, desconfortantes, engraçados,
desanimadores, que dizem de nós, mas também de outros, de uns seres
que vivem entrincheirados em seus lares: "cavernas onde não chove"
(Ricardo, 07/09/2008).
O corredor não é um espaço público; é extremamente coercitivo e de
controle social (Vagner, 07/09/2008). Nos sentimos vigiados o tempo
todo pelos nossos vizinhos, e os guardas da segurança. Às vezes,
cansamos de tanta análise alheia, tanta invasividade. É como se não
conseguíssemos mais ser sós. "Não há sol; há sós". A casa lembra o
livro "1984", o Big Brother.
Há mais olhos e ouvidos entre o quarto e o corredor do que você
pode
imaginar. E não é paranóia pessoal, acaba por ser coletiva: todos vêem
todos nesse panóptico enlouquecedor. Quem ainda não se deprimiu ou se
estressou com essa vida assim, descortinada? Ou fica recluso dentro de
si como uma tartaruga com medo ou ainda está "entusiasmado com a
diversidade" no pouco tempo que estás na casa. De resto, pelo que tudo
indica,
mais cedo ou mais tarde começará a tratar o mundo como "o mundo lá
fora" e achar dicotomicamente que a CEU é um mundo à parte. E, pior,
talvez, seja mesmo: a CEU e a Terra.

Escrito por Ricardo e Joeverson (quinto dos inferno)

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